"A Dominação Masculina”
- 31 de jul. de 2025
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A obra sociológica de Pierre Bourdieu (1 de Agosto de 1930 - 23 de Janeiro de 2002) é dominada por uma análise dos mecanismos de reprodução das hierarquias sociais, reservando um lugar muito importante aos factores culturais e simbólicos.
"A Dominação Masculina” foi desenvolvida a partir de um artigo homónimo publicado em 1990 na Actes de la Recherché en Sciences Sociales. Articula as teorias de Bourdieu sobre a construção do género e a sua análise do poder invasivo e insidioso da dominação masculina, que é, "na forma como é imposta e sofrida... o principal exemplo desta submissão paradoxal" através da qual "as condições mais intoleráveis da existência podem ser tantas vezes percebidas como aceitáveis e até naturais". Esta dominação é efectuada, subtilmente, através de uma forma daquilo a que Bourdieu chama "violência simbólica, uma violência suave, imperceptível e invisível até para as suas vítimas, exercida em grande parte através de canais puramente simbólicos de comunicação e cognição (mais precisamente, desconhecimento), reconhecimento ou mesmo sentimento". Apesar da referência de Bourdieu à "violência suave", a violência simbólica é a arma mais poderosa no arsenal da dominação masculina, pois, apesar da sua invisibilidade virtual, cria as condições de possibilidade para outras formas mais imediatas e explícitas de violência, quer económica, quer física.
Desde a sua publicação original em formato de artigo, em 1990, "A Dominação Masculina" tem sido muito criticada pelas feministas, talvez pelo facto de Bourdieu não se preocupar principalmente em analisar o exercício do poder masculino, mas antes em analisar a aparente aquiescência das mulheres ao mesmo. Isto coloca frequentemente Bourdieu na posição de, aparentemente, dar um sermão às "vítimas" de dominação sobre a sua cumplicidade na sua própria vitimização.
As suas sugestões sobre a participação das mulheres na sua própria dominação baseiam-se no seu conceito de “habitus”, que se revelou importante para a teoria feminista, "o habitus nomeia as disposições características do sujeito social. É indicado na postura do corpo ('hexis') e em hábitos profundamente enraizados de comportamento, sentimento e pensamento". O “habitus” não é, portanto, “uma questão de aprendizagem consciente, nem de imposição ideológica, mas adquire-se através da prática”. Segundo Bourdieu, as nossas identidades sociais não nos são impostas, nem escolhidas voluntariamente, mas antes adquiridas como resultado da experiência de viver (o que "funciona para nós"), uma experiência que não é realizada conscientemente, mas coincide com a questão prática de viver em sociedade. Em "A Dominação Masculina", Bourdieu centra-se na forma como "a divisão dos sexos" não está presente apenas no "estado objectivado — nas coisas (na casa, por exemplo, cada parte da qual é 'sexuada')", mas também "no estado corporizado — no habitus dos agentes, funcionando como sistemas de esquemas de percepção, pensamento e acção".
Embora esta descrição esclareça o valor do conceito de habitus para o feminismo, deve também expor os problemas que o conceito levanta. Embora a obra de Bourdieu aponte para a posição de dominação das mulheres na sociedade como algo não natural, mas antes naturalizado, pode, no entanto, ser vista como um convite ao pessimismo e à inércia política. Os efeitos negativos de um habitus dominado não podem ser superados apenas pela vontade, uma vez que o habitus não opera ao nível do pensamento consciente, mas antes se reflecte na "incorporação das estruturas sociais nos corpos". Assim, Bourdieu consegue facilmente afastar a "falácia intelectualista e escolástica que... leva a esperar que a libertação das mulheres venha através do efeito imediato da 'consciencialização'". "A revolução simbólica reivindicada pelo movimento feminista", insiste Bourdieu, "não pode ser reduzida a uma simples conversão de consciências e vontades". A Dominação Masculina é um importante lembrete para as feministas da força e da insidiosidade dos obstáculos a enfrentar. Ao mesmo tempo, há algo de frustrante na facilidade e na rapidez com que Bourdieu rejeita escolas inteiras de pensamento feminista.
Ao longo de "A Dominação Masculina", Bourdieu aborda importantes problemas feministas invocando inicialmente duas posições "extremas", que presumivelmente pretende representar os limites do debate, e posteriormente descartando cada uma delas pela sua incapacidade de confrontar a verdadeira natureza social da dominação. Eis, por exemplo, Bourdieu sobre a questão do assédio sexual: "Como a socialização diferencial predispõe os homens a amar os jogos de poder e as mulheres a amar os homens que os praticam, o carisma masculino é, em parte, o encanto do poder, a sedução que a posse do poder exerce, como tal, sobre corpos cujos impulsos e desejos são, eles próprios, politicamente socializados". Prossegue em nota de rodapé: "Este ponto é contra a tendência para classificar todas as trocas sexuais do universo burocrático, particularmente entre gestores e secretárias, como 'assédio sexual' (o que provavelmente ainda é subestimado até pelos denunciantes mais 'radicais'), ou como o uso cínico e instrumental do charme feminino como meio de acesso ao poder". E assim, Bourdieu descarta, impaciente, toda uma série de questões relativas ao poder e à sexualidade no local de trabalho.
Bourdieu observa, "a ideia de que a definição social do corpo, e especialmente dos órgãos sexuais, é o produto de um trabalho social de construção tornou-se bastante banal por ter sido defendida por toda a tradição antropológica" e, pode acrescentar-se, por um número significativo de feministas. Mas, defende Bourdieu, "o mecanismo de inversão de causa e efeito que estou aqui a tentar descrever, através do qual se dá a naturalização desta construção, não foi, parece-me, completamente descrito". As observações iniciais de Bourdieu sobre "desmantelar o processo responsável por esta transformação da história em natureza, da arbitrariedade cultural em natural" sugerem um estudo de base sociológica que exponha o funcionamento da Dominação Masculina ao longo da história, e não uma breve visão geral limitada a algumas fontes de dados não relacionadas.
Bourdieu faleceu em 2002, e “A Dominação Masculina” é, por isso, um dos últimos livros da sua carreira. É útil para as feministas como uma declaração concisa das suas ideias sobre a construção de género e como um "caso limite" do pensamento construtivista social. Em última análise, porém, “A Dominação Masculina” é mais valiosa pelo seu estatuto de conjunto de ferramentas conceptuais que as feministas podem utilizar para pensar com, contra e, inevitavelmente, para além de Bourdieu.










