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A “Liberdade" de Pessoa

  • 16 de mar. de 2024
  • 1 min de leitura

O mítico poema “Liberdade” de Fernando Pessoa, foi escrito a 16 de Março de 1935. Este é o dactiloscrito enviado por Pessoa, em discreta carta anónima, a Manuel Mendes, da "Seara Nova", para publicação naquela revista. No entanto, a censura salazarista suspeitou dos contornos do poema e impediu a intenção dos envolvidos. O poema só viria a ser publicado dois anos depois, na Seara Nova nº 526, de 11 de Setembro de 1937, quase dois anos depois da morte de Fernando Pessoa.


Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer!

Ler é maçada,

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como tem tempo não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa em que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma.


Quanto é melhor, quanto há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!


Grande é a poesia, a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música, o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca.


O mais do que isto

É Jesus Cristo,

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...

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