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"A Palavra Manipulada"

  • 22 de fev. de 2025
  • 6 min de leitura
A Palavra Manipulada

As manipulações da palavra são hoje correntes nas sociedades modernas. A democracia parece estar ameaçada pela proliferação das técnicas que podem levar-nos, sem que nós tenhamos consciência disto, a adoptar determinado comportamento ou determinada opinião. Philippe Breton descreve neste livro, com numerosos exemplos tirados dos domínios da política, da publicidade, da psicoterapia e da comunicação, as diversas técnicas que saturam todo o nosso meio.


Chama de imediato a atenção no livro de Breton o desejo de não limitar o estudo da manipulação da palavra ao campo de interesse exclusivamente inguístico, aprofundando a sua análise às consequências que tal manipulação traz à credibilidade do regime democrático e ao comportamento humano, quiçá se não a maior responsável pelo enclausuramento egoísta do homem dos nossos dias.


Breton distingue argumentação de manipulação e considera esta última nos seus aspectos antidemocráticos de imposição de uma idéia sem debate prévio criterioso e livre aliada à privação da liberdade de resistir a essa coerção. Contesta a falácia do desaparecimento de causas dignas de defesa e da necessidade de combater a manipulação das idéias que àquelas se contrapõem, dado que é característico do manipular a violência psicológica, a dissimulação e o recurso à cumplicidade do silêncio.


Historiando a origem da palavra, o autor verifica que somos os únicos seres do universo que utilizam a comunicação para convencer, e os únicos também capazes de mentir, fazendo crer com palavras o que os actos não confirmam.

 

«(…)Ainda podemos falar de manipulação?


Para alguns, o termo manipulação não seria mais pertinente. A palavra não cobriria qualquer realidade e o seu uso revelaria uma mera ideologia. Em suma, o termo Manipulação não serviria senão para manipular, o que em si é, evidentemente, um paradoxo. Se olharmos de perto, há pelo menos cinco razões, que não são homogéneas, geralmente empregadas para renegar ao termo manipulação todo seu potencial descritivo.

A primeira razão é que esse termo serviria para denunciar as opiniões e não os processos.


Toda a ideia com a qual eu não concordo não se apoiaria sobre raciocínios inválidos, mas sim sobre opiniões consideradas manipuladoras. No debate político, essa tendência existe na esquerda: crer que as ideias da direita são falsas e manipuladoras por natureza, já que são da direita. O mesmo ocorre com a direita quanto às ideias da esquerda, cujo sucesso não pode depender da propaganda. A extrema-direita utiliza o termo manipulação para designar quase todas as ideias que não são suas. Assim, o emprego do termo seria um trabalho puramente ideológico e, portanto, questionável.


Essa objeção é válida. Servir-se do termo manipulação para designar conteúdos, opiniões com as quais não se concorda, não é aceitável. Esse uso somente é possível, porque se supõe a existência de uma verdade e de uma falsidade no campo da política e, de um modo geral, no campo das opiniões.


A grande lição da retórica, especialmente a partir de Aristóteles, é permitir a disjunção entre a verdade e a opinião – disjunção inclusive fonte de muitos contra-sensos num universo cultural como o nosso, dominado pelo imaginário cartesiano de que aquilo que se discute é necessariamente falso. Para provar que a ideia de manipulação não é pertinente, temos de provar que podemos dizer a verdade em política. Sem essa prova, estamos e permanecemos no âmbito da opinião, da probabilidade, da sua fragilidade constitutiva e, portanto, da possibilidade da sua trucagem, que denominamos, precisamente, manipulação.



Um mundo cínico?


A segunda razão diz respeito ao facto de que a manipulação não constituiria um conceito pertinente, simplesmente porque tudo seria manipulação. Todo processo, todo artifício, no domínio da palavra, revelaria a manipulação.


Desde o seu nascimento, a Retórica esteve sob a suspeita, como arte de convencer, de ser pura manipulação. Nas relações humanas, tudo seria artificial, manipulável e que a única regra da palavra seria a relação de força. Essa objeção é a mais frágil, uma vez que, de facto, ela não se opõe à existência da manipulação, muito pelo contrário.


A manipulação consiste em estabelecer uma relação de força, mas a característica desse empreendimento é esconder que o faz. Os técnicos da manipulação são bem cientes de que devem velar ao público os procedimentos empregados, sob a pena de perder a eficácia esperada. Alguns têm medo de aceitar a existência da manipulação por medo, talvez inconsciente, de descobrir que ela está em toda parte e que os cínicos estão certos. A realidade é mais modesta.


Fenómeno ético e moralmente detestável, embora muito presente no universo quotidiano, a manipulação ocupa um território mais modesto do que imaginamos. Nós não vivemos num universo de manipulação generalizada. Embora em algumas situações estrategicamente importantes a utilização de tais procedimentos tendam a aumentar como, por exemplo, durante conflitos e guerras ou ainda, o que não é comparável, durante o período das campanhas eleitorais. Toda a descrição objetiva da manipulação não pode senão constatar as suas limitações no espaço público.



Homens livres?


A terceira razão é que nós, agora, seríamos uma sociedade livre, em que cada um tem a escolha, graças à possibilidade de deserção, no sentido empregado pelo cientista político americano Albert Hirschman (1995). O homem teria se tornado, na sociedade moderna, democrática e liberal, um ser racional, pouco influenciável, sobre o qual a manipulação não mais se sustentaria. Nesse caso, a manipulação é um conceito ultrapassado, anterior à queda do muro de Berlim. Nessa perspectiva, as teorias de influência, ditas “seringa hipodérmica", nunca foram ou não são mais apropriadas; trata-se de um verdadeiro modelo teórico ultrapassado. A manipulação era um conceito-chave das teorias de influência. As teorias da recepção, muito populares nas Ciências da Comunicação, teriam posto em ordem o dispositivo comunicacional que, até então, não funcionava bem: é o auditório, o público, o indivíduo livre que constitui, à la carte, a sua própria ideia, as suas próprias representações.


Essa objeção supõe, portanto, que somos homens livres, numa sociedade livre, pouco influenciáveis ou ainda - o que é um oximoro frequentemente encontrado -,"voluntariamente influenciáveis". Haveria, certamente, manipuladores e empresas de manipulação, mas elas afundariam permanentemente na impotência. Nós as olharíamos com um sorriso irónico, opondo-lhes um segundo nível de interpretação salutar.


Aqueles que defendem tais propostas têm garantido o sucesso público: nunca gostamos da ideia de que podemos ser enganados; preferimos o ideal do indivíduo perfeitamente senhor do seu destino. Ao contrário, aquele que denuncia a manipulação jamais traz boas notícias. E, nesse caso, sabemos muito bem o que frequentemente acontece com o mensageiro.


É verdade que, em muitos casos, somos capazes de nos afastar, de desertar, de recusar um produto comercial ou resistir às propostas de um político. Entretanto, essa liberdade é faca de dois gumes, porque, como todos os especialistas afirmam, nunca se é tão manipulável como quando se acredita ser livre.


Toda a gente está pronta para aceitar a ideia de que um modelo mecanicista de influência e de manipulação é uma ingenuidade epistemológica. Mas, salvo se considerarmos que os psicossociólogos são todos incompetentes ou mentirosos, devemos reconhecer a realidade dos fenómenos de influência e de manipulação no campo do convencimento. Muitas experiências têm apontado esse caminho, e esta constatação é bem-vinda: o esquema era mais complexo do que jamais se imaginou.


Dessa reflexão sobre a liberdade, podemos extrair precisamente um elemento definidor de manipulação: há manipulação quando a liberdade do auditório para escolher a opinião que nós lhe propomos não está mais garantida. A nossa liberdade é o primeiro alvo dos manipuladores. Precisamente sabendo que o ideal dos homens é o de serem livres, as técnicas de manipulação concentram-se em todos os procedimentos que limitam essa liberdade, dando-nos a ilusão de possuí-la.


Alguns sustentam que somos manipulados apenas quando "quisermos ser". Aqui, mais uma vez, a menos que se considere que o masoquismo se generalizou como valor, o oximoro está próximo, mesmo se for verdade que haja "terrenos favoráveis" e posturas do auditório que favoreçam a manipulação, o que ninguém pode negar.


Nesse domínio, uma teoria limitada de influência encaixa-se perfeitamente numa teoria limitada da recepção. A manipulação segue, a partir desse ponto de vista, a mesma inclinação que a retórica: um argumento pode convencer um determinado auditório, numa determinada situação... mas não há um auditório universal. O processo manipulador fará rir uma parte do público, que o interpretará como rude e transparente, e surtirá um outro tipo de efeito em outra parte do público. A manipulação designa processos que são concernentes ao conjunto do esquema comunicacional; ela supõe um emissor manipulador, mensagens, um contexto construído para esse feito e um auditório condicionado a isso.(…)»

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