"Mulheres de Atenas"
- 18 de jun. de 2025
- 2 min de leitura
No dia de aniversário de Chico Buarque, recordo a canção composta em 1976. Muito antes de saber a história desta música (porque todas as músicas tem uma história com a qual nos identificamos ou não), havia nela um tom e melodia que provocava em mim uma emoção revolucionária de libertação. Libertação da minha condição feminina limitada. Limitada pela educação de ter nascido mulher e pelas expectativas sociais sobre essa condição.
Recentemente, ao ler “O poder na subversão da linguagem: mulheres e sociedade em canções de Chico Buarque”, das investigadoras Tatiane Kaspari e Juracy Assmann Saraiva, vesti "Mulheres de Atenas" com uma nova roupagem e um sentido distante que se fez perto.
«(…)“Mulheres de Atenas”, assim, evidencia a sobreposição de ideais supostamente coletivos, ou seja, relacionados ao engrandecimento da pátria, sobre anseios individuais. A amargura que se desvela na composição pelas constantes menções ao sofrimento — como a repetição da palavra Atenas e o destaque conferido a vocábulos como sofrem, temem e secam — permite entender esse processo como uma violação da individualidade, que pressupõe autonomia, liberdade e respeito à integridade. Considerando o contexto brasileiro em que foi lançada a produção, pode-se — numa ousadia de interpretação — associar o patriotismo ateniense ao ufanismo engendrado pelos militares e, por extensão, depreender uma crítica implícita de cunho político.
A tônica do texto, entretanto, recai eminentemente sobre a condição feminina, buscando criar um espelhamento às avessas, isto é, por meio da conduta das mulheres de Atenas e das consequências nefastas que sobre elas recaem, a voz lírica incita uma possível interlocutora a identificar um exemplo do que não deve fazer. Para acessar esse sentido, contudo, é preciso que a leitora/ouvinte rompa com a superficialidade do texto, encontrando, em sua urdidura, um caminho de superação da passividade.(…)»







