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"O bucolismo deixará de ser um canto"

  • 14 de ago. de 2024
  • 1 min de leitura

Sempre vivi à beira da paisagem,

pensando-a como ser, vendo-a,

chamando-a para mim, na minha íris.

Reflectida, a paisagem estava

sempre em mim, nos olhos, na boca

com uma história no tempo, hora a hora.

Benigna ou mortal, era ela própria,

era mundo, antigo e breve, terrestre,

leito de homens, para viver pascendo

ou para morrer, como ela mesma era

morta e transformada eternamente.

E acreditei que só, para sempre,

o latejar natural dos astros, do ar,

das águas, da terra, a manteriam

entregada a mim, à minha beira,

tal como estava desde o nascimento.

Mas hoje sei que os homens insanos,

em vez de amarem o corpo da matéria

no olhar e na fragrância das paisagens,

o depredaram, como se apenas

nos quisessem deixar de herança o mundo vivo

dos monstros vindos da nossa antiga pátria, a Grécia.

O grande Minotauro hoje chama-se Chernobyl,

demiurgo que expele um hálito

que gera crias das bestas e dos homens

oposto ao antigo solto do Génesis; que gera

criaturas como se meramente simulasse

a vida. E a paisagem torna-se aparência,

somente simulacro e armadilha,

e o bucolismo deixará de ser um canto,

pois a flauta cala o seu trilo de esperança.

in "Cenas Vivas" (2006: 633-634)

Nascida neste dia, em 1938, Fiama Hasse Pais Brandão é considerada uma das mais importantes escritoras do movimento que revolucionou a poesia nos anos 60.

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