O mundo encantado de Andersen
- 1 de abr. de 2024
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No dia 2 de Abril, comemora-se em todo o mundo o nascimento de Hans Christian Andersen. A partir de 1967, este dia passou a ser designado por Dia Internacional do Livro Infantil, chamando-se a atenção para a importância da leitura e para o papel fundamental dos livros para a infância.
«Um dia, estava ele de bom humor, porque tinha acabado de construir um espelho que possuía uma propriedade: a beleza e a bondade que nele se reflectissem reduziam-se a quase nada. Tudo o que era mau ou desagradável, pelo contrário, aumentava, tornando-se ainda pior.
Quando as mais admiráveis paisagens se reflectiam no espelho pareciam esparregado de espinafres. As melhores pessoas tornavam-se repelentes ou ficavam com a cabeça para baixo, sem barriga e com as caras tão disformes que ficavam irreconhecíveis. Se alguém tivesse uma pequena sarda, podia ter a certeza de que esta se tornava enorme, cobrindo-lhe o nariz e a boca.
– Como isto é divertido! – dizia o diabo do feiticeiro. Logo que um pensamento sensato ou piedoso atravessava o espírito de um homem reflectia-se no espelho um sorriso de escárnio. Este feiticeiro dos diabos ria-se, encantado com a sua invenção. Todos os que andavam na sua escola de feiticeiro, pois ele tinha uma escola de feitiços, contavam por toda a parte que houvera um milagre. Só agora se podia ver, opinavam eles, como o mundo e os homens eram na realidade. Corriam por todo o mundo com o espelho e, no fim, não havia país ou pessoa que nele não visse reflectida a sua imagem distorcida.
Agora eles queriam voar para o próprio céu a fim de fazerem pouco dos anjos e de Nosso Senhor. Quanto mais subiam com o espelho mais este se ria de escárnio. Mal o podiam segurar. Continuaram a voar cada vez mais alto e mais alto, cada vez mais próximos de Deus e dos anjos. De repente o espelho estremeceu tão terrivelmente com o seu malvado sorriso que se escapou das mãos dos diabinhos e se precipitou para a Terra, desfazendo-se em cem milhões de biliões e ainda em mais fragmentos.
E foi assim, despedaçado, que causou mais danos do que antes. Alguns pedaços que não eram maiores que grãos de areia voaram pela vastidão do mundo e as pessoas apanharam com essa funesta poeira nos olhos. Essas pessoas viam tudo errado, e só tinham olhos para o que estava mal, pois cada pequeno grão de espelho mantinha as mesmas forças como se de todo o espelho se tratasse. Houve quem chegasse a ter um pequeno grão do espelho no coração, e então era pavoroso, pois o coração dessas pessoas transformava-se num pedaço de gelo.
Existiam pedaços tão grandes que chegaram a ser usados como vidraças para as janelas. Não era nada aconselhável ver os amigos através deles. Outros foram utilizados como lentes para óculos e então, quando alguém os punha, para se ver com clareza e justiça, tudo corria mal.
O feiticeiro sorria de tal forma que até a barriga lhe rebentava.
O riso fazia-lhe cócegas deliciosas.
Lá fora, voavam ainda pequenos pedaços de vidro.»
in “Primeira história que trata do espelho e dos seus fragmentos”









