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O Quarto de Virginia

  • 25 de jan.
  • 4 min de leitura
Um Quarto Só para Si

Nascida a 25 de Janeiro de 1882, Virginia Woolf foi uma das mais proeminentes escritoras modernistas do século XX. Autora de obras como “Sra. Dolloway”, “To the Lighthouse”, “Orlando” e “The Waves”, foi o seu extenso ensaio “A Room of One’s Own” (1929) que estabeleceu o seu status como uma das vozes mais influentes do feminismo. Nele, Virginia Woolf examinou as desvantagens educacionais, sociais e financeiras que as mulheres enfrentaram ao longo da história, argumentando que “uma mulher deve ter dinheiro e um quarto próprio se quiser escrever ficção”.


«(...) Minha tia, Mary Beton, devo dizer-lhes, morreu de uma queda de cavalo, quando estava em Bombaim. A notícia da herança chegou certa noite quase simultaneamente com a da aprovação do decreto que deu o voto às mulheres. A carta de um advogado caiu na caixa do correio e, quando a abri, descobri que ela me havia deixado quinhentas libras anuais até o fim da minha vida. Dos dois — o voto e o dinheiro —, o dinheiro, devo admitir, pareceu-me infinitamente mais importante. Antes disso, eu ganhara a vida a mendigar trabalhos esporádicos nos jornais, a fazer reportagens sobre um espetáculo de burros aqui ou um casamento ali; ganhara algumas libras endereçando envelopes, lendo para senhoras idosas, fazendo flores artificiais, ensinando o alfabeto a crianças pequenas num jardim de infância. Tais eram as principais ocupações abertas às mulheres antes de 1918. Acho que não preciso descrever em detalhes a natureza árdua do trabalho, pois talvez vocês conheçam mulheres que o tenham feito; nem tampouco a dificuldade de viver com aquele dinheiro, quando era ganho, pois é possível que vocês já tenham tentado fazê-lo. Mas o que permanece ainda comigo como uma imposição pior do que essas duas é o veneno do medo e da amargura que aqueles dias geraram em mim. Para começar, estar sempre a fazer um trabalho que não se queria fazer e fazê-lo como uma escrava, lisonjeando e adulando, nem sempre necessariamente, talvez, mas isso parecia necessário e os interesses eram grandes demais para correr riscos; e depois a idéia daquele dom único, que ocultar equivalia à morte (um dom pequenino, porém caro para sua possuidora), perecendo, e, com ele, o meu ego, a minha alma — tudo isso se transformou praticamente em ferrugem, corroendo a floração da primavera, destruindo a árvore em seu âmago.


Contudo, como estava a dizer, a minha tia morreu; e sempre que troco uma nota de dez xelins, desaparece um pouco daquela ferrugem e a corrosão é raspada, vão-se o medo e a amargura. De fato, pensei, deixando a prata escorregar para dentro da minha bolsa e recordando a amargura daqueles dias, é impressionante a mudança de ânimo que uma renda fixa promove. Nenhuma força no mundo pode arrancar-me as minhas quinhentas libras. Comida, casa e roupas são minhas para sempre. Assim, cessam não apenas o esforço e o trabalho árduo, mas também o ódio e a amargura. Não preciso odiar homem algum: ele não pode ferir-me. Não preciso bajular homem algum: ele nada tem a dar-me. Assim, imperceptivelmente, descobri-me adotando uma nova atitude em relação à outra metade da raça humana. Era absurdo responsabilizar qualquer classe ou qualquer sexo como um todo. As grandes massas nunca são responsáveis pelo que fazem. São impelidas por instintos que não estão sob o seu controle. Também eles — os patriarcas, os professores — tiveram dificuldades infindáveis, terríveis obstáculos contra o que lutar. A sua educação, em alguns aspectos, fora tão falha quanto a minha própria. Gerara neles falhas igualmente grandes. Sim, é verdade, eles tinham dinheiro e poder, mas somente ao preço de abrigarem no peito uma águia, um abutre, eternamente a arrancar-lhes o fígado e a bicar-lhes os pulmões — o instinto de posse, o furor de aquisição que os impele perpetuamente a desejar as propriedades e os bens alheios; a fazer fronteiras e bandeiras, navios de guerra e gás venenoso; a oferecer a própria vida e a vida dos filhos.


Passem pelo Admiralty Arch (eu havia alcançado esse monumento), ou por qualquer outra avenida dedicada aos troféus e ao canhão, e reflitam sobre o tipo de glória ali celebrada. Ou observem, ao sol da primavera, o corretor de ações e o grande advogado encerrarem-se em ambientes fechados para ganhar mais e mais e mais dinheiro, quando é fato que quinhentas libras anuais mantêm um sujeito vivo sob o sol. São instintos desagradáveis de abrigar, refleti. São fruto das condições de vida, da falta de civilização, pensei eu, olhando para a estátua do duque de Cambridge e, em particular, para as plumas de seu tricorne, com uma fixidez que elas dificilmente terão recebido antes. E, ao reconhecer tais obstáculos, medo e amargura converteram-se gradativamente em piedade e tolerância; e depois, passados um ou dois anos, a piedade e a tolerância se foram, e chegou a maior de todas as liberações, que é a liberdade de pensar nas coisas em si. Aquele prédio, por exemplo, gosto dele ou não? E aquele quadro, é belo ou não? Será esse, em minha opinião, um bom ou um mau livro? Com efeito, o legado da minha tia desvendou-me o céu e substituiu a grande e imponente figura de um cavaleiro, que Milton recomendava para a minha perpétua adoração, por uma visão do céu aberto.(...)»

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