O silêncio de Corbin
- 18 de abr. de 2025
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«O silêncio não é apenas a ausência de ruído. Quase nos esquecemos. As referências auditivas desnaturaram-se, perderam a sua força, perderam a sua sacralidade. O medo e até o horror despertados pelo silêncio tornaram-se mais intensos.
No passado, os ocidentais apreciavam a profundidade e os sabores do silêncio. Consideravam-na como a condição do recolhimento, da escuta de si mesmo, da meditação, da oração, da fantasia, da criação; sobretudo, como o lugar interior de onde surge a palavra. Explicaram as tácticas sociais do silêncio. Pintar, para eles, era uma palavra de silêncio.
A intimidade dos lugares, a do quarto e dos seus objectos, a da casa, era tecida com silêncio. Após o aparecimento da alma sensível no século XVIII, os homens, inspirados pelo código do sublime, apreciaram os mil silêncios do deserto e souberam escutar os da montanha, do mar e do campo.
O silêncio comprovava a intensidade do encontro amoroso e parecia um requisito para a fusão. Prenunciava o sentimento duradouro. A vida dos doentes, a proximidade da morte, a presença do túmulo deram origem a uma série de silêncios que hoje são apenas residuais.
Que melhor forma de os vivenciar do que mergulhar nas citações de vários autores que empreenderam uma verdadeira busca estética? Ao lê-los, cada um de nós põe à prova a sua sensibilidade. A história tentou "explicar" com demasiada frequência.(...)»
Historiador das emoções, Alain Corbin refaz, nesta obra, não uma história do silêncio no sentido cronológico e factual do termo, mas, antes, uma história interior, uma espécie de escuta íntima do silêncio, uma trajectória que conduz o leitor contemporâneo a reencontrar-se com aquela “presença no ar” que é para ele o silêncio, presença palpável em certos lugares, em alguns livros, assim como na pintura e nas interações sociais.










