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“Triângulo"

  • 3 de fev. de 2024
  • 3 min de leitura
Triângulo

Excerto do Prólogo assinado por Henry Louis Gates Jr., do livro que reúne as conhecidas e muito discutidas palestras de W. E. B. Du Bois que Stuart Hall, teórico cultural e sociólogo britânico-jamaicano, proferiu na Universidade de Harvard em 1994.

 

«Quando os europeus do Velho Mundo se encontraram pela primeira vez perante as pessoas e culturas do Novo Mundo no século XI, fizeram a si mesmo uma grande pergunta, que não foi: "Vocês não são filhos e irmãos, não são filhas e irmãs? [...] mas: “São homens autênticos? Pertencem à mesma espécie que nós? Ou surgiram de outra criação?

Stuart Hall, Du Bois Lectures


[...]

O que poderíamos chamar de “Dilema de Hall”, o desafio de impedir que as pessoas compreendam o conceito de "raça" como um tipo de diferença biológica, baseada nas diferenças superficiais visíveis ao olho humano, é tão antigo quanto algumas das primeiras reuniões de Europeus com “o outro” em África e no Novo Mundo durante a Idade Moderna - aquela que começou há quinhentos anos - quando as diferenças de cultura e fenótipo logo se fundiram com o desejo económico e exploração para produzir o conceito de "o africano" como um significante novo e fundamentalmente negativo. Durante séculos, este componente tóxico interferiu no nosso próprio instinto humano, fazendo com que nos definíssemos de acordo com algumas das diferenças mais óbvias, muitas vezes “mensuráveis”, como a cor da pele, a capacidade craniana, a largura do nariz e outras partes do corpo. Todos elas caprichosamente reunidas na categoria “raça”, que por si só representa um amálgama de etnia, religião e nacionalidade e, outras vezes, é separada de cada um desses conceitos.


Através do que Hall descreveu como a “cadeia de equivalências” frouxa mas letal – um conceito que pediu emprestado ao filósofo e político argentino Ernesto Laclau – que se estende desde o que os olhos podem ver até ao que a mente pode perceber, ergueram-se estruturas hierárquicas de um tipo ou outro. Assim, quem está no poder aproveita a sua autoridade para produzir conhecimento sobre o que significam tais diferenças, às quais arbitrariamente é dada maior importância do que outras, e então agir sobre elas, ou nessa cadeia de diferenças, com consequências devastadoras para o mundo real.


O que também intrigou Hall foi como os grupos oprimidos, num acto de aparente autolibertação, inverteram essas categorias sem rejeitá-las e, em vez disso, defendiam o orgulho racial ou étnico como se acreditassem que, depois de ter sobrevivido aos efeitos letais do essencialismo, a maneira mais eficaz de derrotar, digamos, o racismo ou o colonialismo anti-negro ou anti-pardo consistia em inverter o guião: abraçar as diferenças físicas e essencializar-se. Assim, foram traçadas as fronteiras das nações dentro das nações, com os que estavam no centro e os que estavam na periferia encerrados numa luta pelo poder, em vez de lutarem pelos termos discursivos que expressavam ou reflectiam esse poder. Por outras palavras, Hall observa que, num mundo desordenado de mistura e migração, as fronteiras de raça, etnia e nacionalidade mantêm de alguma forma a sua diferenciação; um facto que não só ofendeu a sensibilidade cosmopolita de Hall, mas também o perturbou na sua busca por um significado melhor, mais justo e mais fiável da diferença cultural. [...]»


No momento da sua maior plenitude intelectual, Hall disseca criticamente o conceito de raça, a sua substituição moderna pelo de etnicidade e o encaminhamento deste último à nação política. Um exercício sofisticado e agudo, no qual mostra como o horizonte da raça, mesmo desprovido de toda a velha ideologia biológica e pseudo-científica, continua a marcar a experiência social contemporânea, tanto nas suas formas racistas como anti-racistas. O quadro a combater é o de um essencialismo com o qual certos grupos sociais são marginalizados, mas também afirmados. Ao mesmo tempo, a expressão aparentemente mais culturalista da “etnicidade” não supera a imagem de comunidades segregadas, fechadas e culturalmente auto-suficientes. Hall mostra-nos aqui como a política do século XXI é essencialmente atravessada pela diferença, sustentada pela nova onda de migrações em massa com direcção sul-norte.

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