Teorias
- 5 de fev.
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Desce em mim uma névoa espessa e inebriante de pensamento e abstracção, interrompida ocasionalmente pelo absurdo. Há um estranho prazer em ser abrandada por um livro. Força-me a atenção não para o que acontece, mas para o significado de qualquer coisa a acontecer. Detenho-me nas teorias como compositoras que mantêm uma única nota durante tanto tempo que esta começa a mudar de cor.
Às vezes, escrever sobre teorias é como ter uma longa e elegante conversa com um fantasma que insiste em ficar quieto até que o mundo faça sentido. Resistem a ser definidas por qualidades mensuráveis, catalogáveis ou moralizáveis. Numa sociedade como a actual, tornam-se uma anomalia de seres pensantes e sem fidelidade às verdades fixas.
As teorias entram e saem de cena como ideias em forma humana. São irónicas, enlouquecidas e, muitas vezes, trágicas nas suas certezas. Não são apenas ideias num mundo em colapso, mas estudos de caso sobre a forma como os humanos procuram significado quando nenhum é garantido.
As teorias recusam-se a comprometer-se com a política, com o amor e com a crença. Não é apatia. É abertura radical. Querem uma vida governada pela possibilidade, não pela conclusão. E embora sejam difíceis de acompanhar, também são assustadoramente proféticas. Como ideias do nosso tempo, presas à linguagem do velho mundo.
Escrevem-se com precisão matemática e ousadia poética. A sua prosa brilha de inteligência, mas também transborda de tristeza. O humor é seco, as críticas acutilantes, e, no entanto, por baixo de tudo isto, há um anseio de coerência que sabem que nunca irão encontrar.
Há algo de devastador em assistir a uma sociedade a filosofar até ao esquecimento. A sátira das teorias é subtil, porém implacável. Não é a ideologia que ridicularizam, mas a ilusão de que só as ideias nos podem salvar. Mesmo causas nobres, uma vez filtradas pela vaidade e pela burocracia, tornam-se vazias. A sua relação, complexa e marcada por tabus, torna-se uma metáfora para o desejo de fundir pensamento e sentimento, intelecto e intimidade.
As teorias não nos entregam conclusões, entregam-nos labirintos, salas que se abrem para outras salas. E em cada uma delas, vislumbram algo de real: a beleza da dúvida, a dignidade da complexidade. A vida também nunca está verdadeiramente concluída. O grande projecto de nos compreendermos a nós próprios e ao mundo é sempre interrompido: pelo tempo, pela morte, pela distração. Há que permitir que a estrutura reflicta esta verdade.
É como percorrer os caminhos de uma cidade que se pensava conhecer, só para encontrar portas desconhecidas em cada rua. Fazem-me pensar em quantas das supostas crenças são apenas disfarces convenientes para os medos.











