Logicamente não divago
- 14 de jan.
- 3 min de leitura
A capacidade de pensar é uma das características mais marcantes da humanidade. Nas diferentes culturas, a definição de humanidade está associada a conceitos como a consciência, o conhecimento e a razão. De acordo com a tradição ocidental clássica, os seres humanos são definidos como “animais racionais” ou “animais lógicos”. A lógica, enquanto investigação dos princípios do raciocínio, foi estudada por muitas civilizações ao longo da história e, desde as suas primeiras formulações, a lógica desempenhou um papel importante no desenvolvimento da filosofia e das ciências.
Apesar da sua inegável relevância para o desenvolvimento do conhecimento, das ciências e das tecnologias, existe pouca consciência pública sobre a importância da lógica. A proclamação do Dia Mundial da Lógica pela UNESCO, em associação com o Conselho Internacional de Filosofia e Ciências Humanas (CIPSH), pretende levar a história intelectual, o significado conceptual e as implicações práticas da lógica à atenção das comunidades científicas interdisciplinares e do público em geral.
A lógica estabelece as normas que as pessoas têm de cumprir, se desejam alcançar o raciocínio correcto ou válido. Se a lógica fosse uma disciplina empírica, acerca da maneira como as pessoas pensam de facto, teria de admitir como correctos, ou válidos aqueles raciocínios que a maioria das pessoas realizam supondo serem correctos ou válidos. Os raciocínios incorrectos, ou logicamente inválidos, não se tornam válidos mesmo que todas as pessoas os tomem como válidos.
A validade é uma propriedade dos raciocínios e não das proposições que os compõem, ao passo que a verdade é uma propriedade das proposições que compõem os raciocínios. Isto é, uma proposição pode ser verdadeira ou falsa; mas não faz sentido dizer que é válida ou inválida. Pelo contrário, um raciocínio é válido ou inválido mas não faz sentido dizer que é verdadeiro ou falso. Esta não é uma mera convenção, nem uma distinção meramente verbal; ela corresponde à diferença que existe entre a avaliação de um raciocínio e a avaliação de uma proposição.
Avaliar uma proposição é muito diferente de avaliar um raciocínio. Quando avaliamos um raciocínio e sancionamos a sua qualidade, afirmamos que ele nos "conduz" à verdade, assumindo que as premissas são verdadeiras. Esta verdade a que ele nos "conduz" é a proposição que se conclui. Assim, avaliar positivamente um raciocínio é afirmar que, assumindo a verdade das suas premissas, ele nos garante a verdade da conclusão. Logo, temos de distinguir essa qualidade que os bons raciocínios têm, que consiste em garantir a verdade das suas conclusões, da própria verdade das suas conclusões.
Exemplo da diferença entre verdade e validade:
Sócrates e Platão eram egípcios.
Logo, Sócrates era egípcio.
Este raciocínio é claramente válido. Mas é a sua premissa verdadeira? Pode ser verdadeira ou falsa; a lógica nada nos diz sobre isso. E a sua conclusão é verdadeira ou falsa? A lógica também não diz. O que a lógica afirma é que se a premissa for verdadeira, então a conclusão também é verdadeira: é por isso que é um raciocínio dedutivo válido. É aliás isso mesmo que é um raciocínio dedutivo válido. Um raciocínio dedutivo válido é aquele em que se as premissas forem verdadeiras, a conclusão também será verdadeira.
Claro está que se as premissas forem falsas a conclusão pode ser falsa, ainda que o raciocínio seja válido. A lógica estuda as leis da inferência dedutiva. A lógica estuda as leis que permitem que de premissas verdadeiras se derivem conclusões verdadeiras. A lógica não pode pronunciar-se sobre a verdade das premissas de um raciocínio; afirma apenas que a conclusão de um raciocínio é verdadeira se, e só se:
1. o raciocínio for válido;
e
2. as premissas forem todas verdadeiras.
Existem outros tipos muito comuns de raciocínio: a indução e analogia. Mas nestes casos as conclusões não se seguem logicamente das premissas. Um raciocínio indutivo razoável é ainda um raciocínio dedutivamente inválido.











