O artista é a obra e a obra é o artista?
- 9 de jan.
- 2 min de leitura
Se um artista macula a sua obra por condutas, privadas ou públicas, repreensíveis, as concepções que o singularizam ganham força. Crimes de assédio, pedofilia, injúria, filiações e apoios a ideologias, muitas vezes expressos nas próprias obras, declarações racistas, xenófobas, antissemitas, sexistas são alguns dos actos que desencadeiam polémica.
Se a obra é uma emanação directa da pessoa do artista, então a obra é o artista e se o seu comportamento é censurável devemos censurar a obra? Na perspectiva radical da “cultura do cancelamento”, não só a obra como o seu autor podem ser censurados. É plausível que a moral da obra esteja em questão, sem que a do seu autor seja questionada? Deve haver separação entre o autor e a sua obra, sob o argumento de que as obras são autónomas e, portanto, devem ser apreciadas por elas mesmas, independente da moral do seu autor?
A identificação entre a obra e o artista separa-se, autonomiza-se, tanto no processo de produção como no de recepção. As formas de apropriamento de uma obra, podem ser contraditórias entre si e entre as intenções do artista. As obras circulam em tempos e espaços diferentes e se forem retiradas do seu contexto de produção, podem servir a interesses que se separam do artista. Além disso, se a recepção da obra estiver vinculada a uma mudança temporal, ela pode revelar visões toleradas num momento e inaceitáveis noutro.
Por outro lado, a obra carrega traços da visão do artista, das suas disposições ético-políticas, quer estejam ligadas ao seu ofício ou não. As responsabilidades sobre ela precisam ser assumidas, também sobre os efeitos que lhes escapam, quer o artista tenha sucesso ou fracasso na sua carreira. Também é importante analisá-la na sua evolução, tanto em relação às estratégias do artista como às estratégias de criação frente às transformações do campo de produção cultural em que ela se inscreve, e que termina por lhe atribuir significado.
Posso separar a obra do artista? Posso e não posso. Posso, porque a minha interpretação da obra é subjectiva. O significado que lhe atribuo será sempre diferente do significado atribuído pelo artista no momento em que criou a obra. Não posso, porque sem determinado artista determinada obra não existia e, a mesma, quer goste ou não, será sempre um reflexo da singularidade do artista.
Posso censurar o artista e/ou a obra? Não. Ao censurar a obra, ao censurar o artista, estou a ignorar a autonomia relativa da obra e a desconsiderar os mecanismos e os motivos que movem uns e outros, os mesmos que excluíram e excluem as mulheres e as minorias por motivos relacionados à sua pessoa e não aos seus trabalhos.











