A importância da importância
- 7 de jan. de 2024
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Sócrates discursava frequentemente em público sobre temas importantes da vida e da filosofia, de pé sobre uma grande pedra no canto do mercado. As pessoas no mercado passavam, ouviam durante alguns minutos e depois iam embora. Nunca deram muita atenção à sua filosofia.
Ao perceber que as pessoas não estavam a dar muita atenção à sua filosofia, Sócrates decidiu tentar algo diferente. Anunciou ao público que iria contar uma história muito interessante. Aqueles que ouviram o seu anúncio aproximaram-se com grande entusiasmo para ouvir a sua história. Ele começou a sua narrativa assim:
“Havia um comerciante que tinha muitas mercadorias para vender e decidiu ir a outra cidade maior para as vender. Empacotou as suas mercadorias, carregou-as aos ombros e partiu antes do amanhecer. O único caminho para a cidade exigia que ele escalasse uma grande montanha. Enquanto caminhava, encontrou outro homem com um burro, também a caminho da mesma cidade. Enquanto caminhavam juntos e conversavam, tornaram-se amigos. Então, o comerciante pediu ao outro homem que alugasse o seu burro para guardar as suas mercadorias até chegarem à outra cidade. O homem aceitou por uma determinada quantia em dinheiro.”
Nesta altura, Sócrates percebeu que uma plateia maior se tinha reunido à sua volta para ouvir a história, e muitas pessoas esqueciam-se dos seus deveres enquanto o ouviam. As pessoas que costumavam parar e seguir depois de poucos minutos também se esqueciam dos seus afazeres e ficavam para trás para ouvir a história. Sócrates continuou:
“Têm de escalar uma montanha íngreme para chegar ao seu destino. O comerciante colocou as suas mercadorias no burro e partiram de manhã. Era fácil caminhar de manhã. À medida que o dia avançava, a subida da montanha tornou-se muito difícil. Estavam suados e muito cansados. Quando o sol lhes nasceu sobre as cabeças, decidiram descansar.”
Sócrates tinha agora ainda mais pessoas reunidas à sua volta, ouvindo atentamente a sua história. Continuou:
“Era meio-dia e estavam cansados. Decidiram fazer uma pausa, mas não havia árvores nem sombra sob a qual se pudessem sentar e descansar. Havia apenas a sombra do burro que transportava a mercadoria. À sombra daquele burro, havia espaço para apenas um homem. O dono do burro disse ao comerciante que a sombra do burro lhe pertencia, pois era o dono do burro. Mas o comerciante discordou, dizendo que tinha alugado o burro, pelo que a sombra do burro lhe pertencia.
O dono do burro disse que alugava apenas o burro, e não a sombra. Mas o comerciante disse que, quando alugou o burro, isso incluía a sombra do burro. Os dois homens começaram a discutir acaloradamente à sombra do burro. Ambos alegaram que ela lhe pertencia legalmente.”
Nesse momento, uma grande multidão reuniu-se em torno de Sócrates. Então, ele desceu da pedra onde estava e afastou-se. As pessoas seguiram-no, pedindo-lhe que completasse a história. Não lhes deu atenção e continuou a andar. As pessoas seguiam-no, pedindo ainda mais que completasse a história. Insistiram com ele para que terminasse a história, pelo que parou de andar, virou-se para elas e disse:
“Eu estava a falar-vos de coisas importantes e sérias, como a vida e a filosofia, mas vocês não estavam a prestar atenção. Mas quando comecei a contar uma história criativa sobre um burro e a sua sombra, vocês ficaram muito ansiosos por ouvir. Estão a prestar mais atenção a coisas tolas e a ignorar as coisas importantes da vida. Vocês deviam prestar mais atenção às coisas importantes da vida do que a questões triviais.”










