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O Tempo tem o Tempo que o Tempo tem

  • 2 de jan. de 2024
  • 4 min de leitura
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«Em diferentes sociedades, o tempo leva a criar hábitos – para alguns, sábado à noite é tempo de estar com amigos, o Natal é tempo para estar com a família, verão é tempo de ir à praia, temos fome nos horários que as nossas actividades diárias nos habituaram a comer. Assim, o tempo, tal qual o entendemos, faz parte da formação do nosso ser social, ou seja, da nossa educação. O tempo exerce uma coerção de fora para dentro e o seu aprendizado, desde que somos crianças, colabora na construção da nossa autodisciplina.


Nas sociedades antigas, com rudimentares sistemas de numeração, a contagem dos ciclos da Lua era suficiente para a organização da vida social. Isso ocorria, provavelmente, porque o tipo de organização social não exigia nem um sistema complexo de numeração, nem de determinação do tempo. Segundo Le Goff (1995), na Idade Média anterior ao século XIII, não havia necessidade da exactidão na medida do tempo e a referência para sua determinação não eram os números. No Chile do século XVII, também não ocorriam grandes precisões na medição do tempo, pois este era frequentemente medido por credos: em 1647, descreveu-se que o terramoto havia durado o tempo de dois credos (cf. THOMPSON, 1998), o mesmo se observa em relação ao terramoto que abalou a cidade de Cusco, em 1650. Porém, a partir do século XIII, nas cidades comerciais da Europa, os sinos que até então marcavam apenas os ofícios religiosos, começaram a marcar também os horários do trabalho e, nos séculos XIV e XV com o surgimento do relógio mecânico, passaram a marcar aqueles horários com maior precisão. No entanto, Le Goff (1995) aponta que esses mecanismos eram frágeis, avariavam-se com frequência e o ponto de partida do dia variava de cidade para cidade, pois dependia do nascer do Sol. Porém, com o desenvolvimento da urbanização e a expansão do comércio em alguns países, essas medidas já não eram suficientes para regular a vida do homem.


Observar sociedades que não o utilizam, do mesmo modo que a nossa, ou que nem possuem um conceito de “tempo” pode ajudar-nos a compreender a noção. Bourdieu (1979) realizou pesquisas com camponeses cabilas, na Argélia e segundo ele, tais camponeses possuíam uma atitude de completa indiferença em relação à passagem do tempo, a pressa era vista como falta de compostura e até mesmo como uma “ambição diabólica”. E. Thompson (1998), conta-nos dos nuers – uma confederação de tribos do sul do Sudão e do oeste da Etiópia – para os quais não existe uma expressão equivalente a “tempo” e, portanto, não podem falar dele como se fosse algo real. Os nuers organizam os acontecimentos por uma ordem lógica, não cronológica. Elias (1998) fala-nos de sociedades em que não existe calendário, nelas não é possível saber, sequer, qual a idade de uma pessoa.


Nessas sociedades, cuja organização não exige uma noção de “tempo” ou, caso exija, ele não necessita ser medido com a mesma precisão que na nossa, não há um sistema simbólico (com séculos, dias, meses, horas, minutos, segundos, etc.) que representem uma sucessão irreversível, no interior de um devir que não se repete, para a qual, no fim das nossas vidas, olhamos com descrédito e nostalgia.


Com os novos modos de trabalho, e de sociedade, surgidos a partir do capitalismo, a medida do tempo precisou ser apurada para permitir a sincronização de um número de situações sociais cada vez mais complexas. O desenvolvimento da relojoaria – que permitiu mecanismos cada vez mais precisos de medição do tempo – contribuíram para a criação de máquinas que possibilitaram as Revoluções Industriais. Não é coincidência que o Big Ben tenha sido erigido em 1859, ou seja, em meio à segunda Revolução Industrial. O relógio, que entre os séculos XVII e XVIII forneceu um modelo ao Universo, no XIX, tornou-se um símbolo da Era Industrial. Não é sem razão que os operários das indústrias inglesas do século XIX eram proibidos de ter relógios. O controlo do tempo era prerrogativa do patrão. Mas, mesmo sendo pelo relógio do patrão, as pessoas adquiriam a sua própria noção de tempo e assim, o tempo penetrou o corpo.


Os relógios são mecanismos historicamente criados pelas sociedades. Actualmente, tais mecanismos são feitos de modo a funcionar exactamente da mesma maneira em todas as partes do mundo. É isso que possibilita, por exemplo, a sincronização da bolsa de valores de New York e de Hong Kong e, por consequência, a especulação financeira.


Os relógios das igrejas medievais possuíam apenas um ponteiro e isso era suficiente para as necessidades sociais, os das fábricas da Revolução Industrial do século XVIII possuíam dois marcadores e hoje temos cronómetros que medem milésimos de segundo. Sem os conhecimentos das ciências físicas e os da Matemática, isso não seria possível. O avanço da precisão dos relógios foi acompanhado pelo aumento da autodisciplina, pois, enquanto os relógios daquelas igrejas marcavam algumas actividades sociais da comunidade, os nossos relógios de pulso, actualmente, regulam todos os milésimos de segundo das nossas vidas. No entanto, não percebemos que o “tempo” só se configura para nós como uma “coisa” que existe independente da nossa sociedade, devido a essa autodisciplina aprendida desde que nascemos.


Realizamos essa “coisificação” quando nos referimos ao tempo cronológico, ao pressupormos a existência de um tempo físico, fora do ser humano. Quase não percebemos a importância, na nossa formação, do tempo kairós, que, por ser o tempo da experiência, não está dissociado do ser social. Segundo Rosa (2004), a temporalidade cronológica utilizada pela racionalidade moderna teria por especificidade neutralizar a actividade humana na temporalidade kairós que seria a da não quantificação, do não cálculo, ou seja, um “tempo” que é da ordem do sujeito e jamais enquadrável e capturado por modelações.


Rosa (2004) traz, pela via da sociologia, a discussão sobre a normalização dos trabalhadores e a resistência deles aos discursos normalizadores do trabalho, possibilitada pelo tempo da experiência, ou seja, pelo kairós. Fernandes (2011) insere, na área da História da Educação Matemática, a discussão sobre o tempo kairós na formação da memória e da experiência.»


in «Tempo, História e Educação Matemática» de Arlete de Jesus Brito.

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