Pensador livre
- 11 de jul. de 2024
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Günther Anders escreveu as suas obras principais em Nova Iorque, como pensador livre. Toda a sua vida foi profundamente marcada pela luta intelectual e militante contra a política do armamento nuclear. Mas este não é o único aspecto interessante da sua obra. A sua análise da relação entre o homem e a tecnologia chega a resultados inéditos que permitem encarar o fenómeno da crescente tecnicização do mundo e do seu impacto sobre a condição humana de uma forma nova.
«(…) voltemos aos produtos de usar e deitar fora, uma vez que a sua encarnação mais proeminente não é em absoluto a moda, mas a indústria bélica, já que esta, mediante constante modernização dos seus modelos, torna inúteis os anteriores, ou seja, mediante a produção destrói (…)
(…) as maiores vantagens só as oferece, claro está, a guerra “quente”, pois as armas, pelo menos os projécteis, as bombas e as armas químicas, formam parte dos “bens de consumo”, por estranho que possa soar, pois só se podem utilizar uma única vez. Claro que seria um erro considerar a guerra como uma cesura na vida da indústria capitalista; antes representa só uma continuação da destruição pacífica de produtos com outros meios, para parafrasear a famosa definição de Clausewitz.
A indústria não tende, pois, em primeiro lugar (como poderia fazer-nos crer a produção da bomba de neutrões) para a liquidação do mundo de pessoas e material do inimigo (a que tendem as suas armas), mas dos seus próprios produtos. A estratégia da vitória relâmpago, da imediata e total ruína do adversário, que tinha sido considerada possível e prática há trinta e cinco anos, tornou-se hoje amplamente obsoleta: no plano empresarial seria um mau negócio. O que a indústria prefere agora é a guerra fiável, a guerra com perspectivas sólidas de que dure anos, isto é, a guerra do tipo da do Vietname, que pode acabar inclusive com uma derrota militar (como foi o caso), uma vez que pouco importa que se tenha vencido ou não militarmente, que representa, em todo o caso, uma vitória triunfal do poder da indústria combatente, um consumo máximo de produtos de usar e deitar fora. Visto assim, o Vietname só foi em aparência um inimigo dos Estados Unidos; na verdade, era, quisesse-o ou não, o seu melhor comprador de mercadorias e, com isso, seu aliado mais próximo. Que outro cliente, a não ser semelhante “inimigo”, teria oferecido à indústria americana a possibilidade de produzir e consumir o triplo das bombas da segunda guerra mundial? A necessidade de semelhante “inimigo”, cliente ou aliado, e de semelhante mentalidade, denominada “patriotismo”, que facilita essa relação: essas necessidades produzem-se não menos de modo artificial que as dos discos estereofónicos ou dos televisores a cores. As fábricas em que se produzem essas necessidades são os mass-media.
Recapitulemos: a modernização dos produtos e a guerra são dois fenómenos gémeos, que se reforçam um ao outro. Ambos servem, cada um à sua maneira, para a destruição dos produtos, que por seu turno garante a continuidade e o aumento da produção. Este aumento é a única coisa que se deseja manter constante e perene. Os produtos, em contrapartida, têm de desaparecer sempre. E o mesmo se passa com os meios de produção, pois a sua permanente utilidade tornaria manifesto o estagnar da produção, para não dizer que, aos olhos daqueles que os produzem, os meios de produção são igualmente produtos e, naturalmente, enquanto tais estão submetidos à lei do uso o mais rapidamente possível e da sua substituição tão depressa quanto possível por outros. O nome do processo aqui descrito continua a ser “progresso”, um conceito que de facto, tanto no Ocidente como Leste, superou da maneira mais vergonhosa todas as crises e catástrofes do século e é o único pólo permanente no fluxo dos fenómenos.(…)»
in «Tecnofilosofia Líquida:ANDERS, BLUMENBERG E SLOTERDIJK.Orgs. João Ribeiro Mendes & Bernhard Josef SyllaBraga. 2019










