Provavelmente um dos mais importantes pensadores do nosso tempo
- 7 de jul. de 2025
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«(…) Sabemos que o exército ateniense repeliu o exército persa. A Pérsia reagiu, mas Atenas conseguiu, novamente, repeli-los através de uma sequência de acontecimentos bastante improvável. Daqui surgiram as primeiras formas de democracia. Era muito frágil e durou pouco tempo, e demorou muito tempo até que as nações com um sistema de governação democrático emergissem. A democracia francesa entrou em colapso no século XX, após os ataques do exército nazi.
Por isso, precisamos de ensinar aos alunos e aos aprendizes o que é o sistema. Não se trata apenas da regra da maioria – trata-se de um determinado período de tempo e da pluralidade de ideias antagónicas. É isso que vitaliza a democracia. Implica também não só algum tipo de dor ou sofrimento moral, porque é preciso tolerar ideias com as quais não se concorda, mas também o poder ser transferido para pessoas com as quais não se concorda. Implica também o respeito pelas minorias.
Uma coisa que não é tão conhecida que eu queira referir: "A democracia não tem verdade". Deixe-me explicar. O regime totalitário reivindica a verdade dos deuses ou de um poder superior. Em democracia, a verdade é fluida, a verdade está lá, e é temporária, pertence ao cidadão. Volto sempre ao termo cidadão, pois implica sentir-se responsável pelo destino nacional do próprio país e sentir solidariedade para com uma comunidade.
Isto também se aplica quando refletimos sobre ética – pensar que o que é bom e o que é mau pode ser definido. Os termos fundamentais são responsabilidade e solidariedade – a sociedade não pode viver como uma sociedade democrática sem estes dois factores.
(…)
A Europa está bastante doente neste momento. O que significa globalização? Significa que todos os humanos se tornaram interdependentes – temos de enfrentar problemas e perigos fundamentais comuns. Quais são?
. A deterioração da biosfera e do ambiente ameaça as nossas vidas enquanto pessoas civilizadas.
. Temos economias desreguladas que produzem crises – não são apenas desreguladas; são movidas pela especulação financeira.
. Temos angústia – costumávamos pensar que amanhã seria melhor do que ontem – ainda é assim? Ainda existe a crença no progresso?
. Ódio, fanatismo, retraimento.
Isto deveria levar-nos a alargar a noção de solidariedade para além das nossas fronteiras nacionais, mas temos aqui um problema. Em vez de uma comunidade de fé, de um novo humanismo, de um humanismo global, vemos as angústias e as crises fomentarem o foco na identidade nacional, na identidade religiosa, em identidades físicas que se centram em aspectos específicos. É claro que todos temos identidades, mas alguns destes aspectos obscurecem a sensação de termos uma comunidade comum, um destino comum.
Todos os seres humanos têm uma identidade comum – capacidades cerebrais, afectividades, sentimentos de alegria, tristeza, etc. Estes são sentimentos humanos comuns que nos permitem sentir empatia e solidariedade. Por outro lado, somos também muito diferentes psicológica e ideologicamente. Devemos reconhecer que somos idênticos e diferentes.(…)»
Edgar Morin in
Nascido a 8 de Julho de 1921, o sociólogo, antropólogo, historiador e filósofo Edgar Morin é um dos maiores pensadores contemporâneos e um dos últimos grandes intelectuais da época de ouro do pensamento francês do século XX.










