top of page

Que faremos se tomarmos a ignorância como conhecimento?

  • 16 de jun. de 2025
  • 3 min de leitura
Imagem Wix

«Todos têm direito a uma opinião, e é certamente útil ter algumas quando aparece um investigador. Mas estas são opiniões de uma ordem bem diferente das opiniões dos séculos XVIII ou XIX. Provavelmente é mais preciso chamar-lhes emoções do que opiniões, o que explicaria o facto de mudarem de semana para semana, como nos dizem os investigadores. O que está aqui a acontecer é que a televisão está a alterar o significado de "estar informado", criando uma espécie de informação que poderia ser apropriadamente chamada de desinformação. Desinformação não significa informação falsa. Significa informação enganadora – informação deslocada, irrelevante, fragmentada ou superficial – informação que cria a ilusão de saber algo, mas que na verdade nos afasta do conhecimento. Ao dizer isto, não quero dizer que os noticiários televisivos visem deliberadamente privar as pessoas de uma compreensão coerente e contextual do seu mundo. Quero dizer que, quando as notícias são apresentadas como entretenimento, esse é o resultado inevitável. E ao dizer que os noticiários televisivos entretêm, mas não informam, estou a dizer algo muito mais grave do que estarmos a ser privados de informação autêntica. Estou a dizer que estamos a perder a noção do que significa estar bem informado. A ignorância é sempre corrigível. Mas o que faremos se considerarmos a ignorância como conhecimento?»


Neil Postman in "Amusing Ourselves to Death"

 

Uma das formas para identificar a desinformação, e ajudar a democracia a ser mais resistente à manipulação, é desconfiar das notícias com uma grande carga emocional e privilegiar o conteúdo em vez do sensacionalismo. Se este parece ser o “estado normal” de uma boa parte das notícias em Portugal, e não só, não fico surpreendida com a queda na confiança nas mesmas. Do jornalismo espero isenção e factos, e pertenço à percentagem de portugueses que recorre a fontes oficiais e sites institucionais.


A Agnotologia, ou estudo das manobras políticas e culturais praticadas por pessoas e grupos poderosos, que se beneficiam da ignorância social por meio da manipulação de informações, diz-nos que há, pelo menos, três tipos de ignorância: a ignorância como um estado primitivo a ser preenchido por conhecimento, a ignorância como construção passiva e a ignorância como construção activa.


O conhecimento é útil quando depois de adquirido é aplicado à nossa vida pessoal, social e política. Nos últimos tempos, a rejeição do conhecimento tornou-se um acto político. O que conta é aquilo em que o indivíduo acredita, ainda que as suas crenças esbarrem no que diz a ciência. Afinal, ele pode escolher os conteúdos que consome – e certamente um deles vai corresponder à sua “verdade”.


As convicções são parte integrante da nossa identidade, e é por isso que raramente mudam. "Há momentos, observou um dia o filósofo Ludwig Wittgenstein, em que as razões se esgotam". Quando isso acontece, as provas a favor ou contra as nossas crenças parecem irrelevantes. O que faz de uma convicção uma convicção não é a sua certeza lógica ou o quão bem fundamentada ela é. Não é o conteúdo da convicção que importa; o que importa são as suas ligações, ou as suas ligações percebidas, com o nosso modo de vida e com o que nos importa. Mais importante ainda, as convicções significam para nós próprios e para os outros o tipo de pessoa que queremos ser — mesmo que muitas vezes não tenhamos a coragem de viver de acordo com elas. Em suma, as convicções reflectem, e em parte compõem, a nossa auto-identidade. É este facto que faz com que uma convicção nos pareça certa, seja ela ou não.

 

bottom of page