“The Inhuman”
- 9 de ago. de 2025
- 2 min de leitura
«A sensação rompe uma inexistência inerte... O que chamamos vida procede de uma violência exercida a partir do exterior sobre uma letargia. A ‘anima’ existe apenas como forçada. O aistheton* arranca o inanimado do limbo em que inexiste, perfura a sua vacuidade com o seu raio, faz uma alma dele emergir.»
in “The Inhuman”
A antropologia do inumano de Jean-François Lyotard (10 de Agosto de 1924 - 21 de Abril de 1998) coloca em primeiro plano uma alma corporal cuja abertura aos excessos de afecto é incontrolável. O excesso de afecto provoca um colapso na capacidade de processar e articular o que me afecta. O efeito da afectabilidade incontrolável é comparável ao que Sigmund Freud designa por "repressão primária" (Urverdrängung; 1960). Algo aconteceu, mas o acontecimento não é nem pode ser processado e integrado na estrutura da experiência. O sentimento de dor e confusão evocado pelo acontecimento é reprimido e a sua causa – o acontecimento – permanece desconhecida porque nunca se tornou parte do conhecimento ou da experiência de alguém. Mas o que é reprimido volta para nos assombrar: a alma permanece refém dos sentimentos irrecuperáveis e inarticuláveis evocados pelo excesso de afecto.
Segundo Lyotard, é “tarefa da escrita, do pensamento, da literatura, das artes, aventurar-se a testemunhar” esta angústia da alma. Assombrada pelos “colapsos sublimes” resultantes de um excesso de afeição, a alma dá origem ao “pensamento verdadeiro”: “Se pensa que está a descrever o pensamento quando descreve uma selecção e tabulação de dados, está a silenciar a verdade... Pensar, como escrever ou pintar, quase não é mais do que deixar que algo doável venha até si.”
*Capaz de ser percepcionado pelos sentidos; objecto dos sentidos, o sensível.











