Um filósofo prolífico e provocador
- 25 de mai. de 2025
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A característica mais consistente e mais distintiva da obra de Alasdair MacIntyre, que morreu a 21 de Maio, era a sua antipatia pelo mundo capitalista liberal moderno. Acreditava que a filosofia moderna e a vida moderna são caracterizadas pela ausência de qualquer código moral coerente e que a grande maioria dos indivíduos que vivem neste mundo não tem um sentido significativo de propósito nas suas vidas e também não tem uma comunidade genuína. Baseava-se no ideal da pólis grega e na filosofia de Aristóteles para propor um modo de vida diferente, no qual as pessoas trabalham juntas em comunidades genuinamente políticas para adquirir virtudes e cumprir o seu propósito inatamente humano. Um modo de vida que deveria ser sustentado em pequenas comunidades que devem resistir da melhor forma possível às forças destrutivas do capitalismo liberal.
É importante ter em conta que MacIntyre sugeria que devemos apenas mexer nas fronteiras da sociedade capitalista liberal; o seu objectivo era transformá-lo fundamentalmente. Não acreditava que isso acontecesse de forma rápida ou fácil, e na verdade pode até não acontecer, mas acreditava que será um desastre para a humanidade se não acontecer. O seu livro “After Virtue” termina com um famoso aviso sobre “as novas eras das trevas que já estão sobre nós”. É também importante ter em conta que, mesmo após uma ponderação cuidadosa, não concordemos com a solução proposta por MacIntyre, ou não acreditemos que ela tenha alguma hipótese de realmente acontecer, pode ainda assim ser que a crítica de MacIntyre ao mundo moderno esteja pelo menos parcialmente correcta. MacIntyre estava bem ciente de que a maioria de nós que foi educada no mundo capitalista liberal vê as ideias e instituições do nosso mundo como naturais e desejáveis — não perfeitas, mas fundamentalmente sólidas — e, portanto, não seremos facilmente persuadidos de que ele é, de facto, inerentemente falho e profundamente prejudicial. Mas estar aberto a esta possibilidade é essencial para compreender MacIntyre.
MacIntyre defendia que vivemos hoje numa sociedade fragmentada, composta por indivíduos que não têm qualquer concepção do bem humano, nenhuma forma de se unirem para procurar um bem comum, nenhuma forma de nos persuadirmos uns aos outros sobre o que esse bem comum pode ser e, de facto, a maioria de nós acredita que o bem comum não existe nem pode existir. Que tipo de política pode ter uma sociedade assim? “Politicamente, as sociedades avançadas da modernidade ocidental são oligarquias disfarçadas de democracias liberais. A grande maioria dos que as habitam é excluída da participação nas elites que determinam o leque de alternativas entre as quais os eleitores podem escolher. E as questões mais fundamentais são excluídas deste leque de alternativas”. (The MacIntyre Reader 237; 248, 272). O que MacIntyre quer dizer com “questões mais fundamentais” são as questões sobre qual é o melhor modo de vida para os seres humanos individuais e para as comunidades humanas como um todo, e como cada um pode ser organizado de modo a permitir que o outro floresça. A política moderna não tem espaço para tais questões.
Não existem alternativas significativas sobre estas questões porque quase todos os cidadãos concordam, conscientemente ou não, com a ideia moderna de que as questões sobre o melhor modo de vida não são passíveis de resolução política ou consenso e que devem ser deixadas a cada indivíduo decidir. MacIntyre e outros críticos do liberalismo, que o vêem como a manifestação política do emotivismo, defendem que o liberalismo afirma ser neutro em relação ao melhor modo de vida e transfere os debates sobre o mesmo da esfera pública para a privada, alegando que o Estado não deve tomar posição sobre o que é uma vida boa ou um bom Estado. Isto, porém, tem o efeito de privilegiar um certo tipo de vida e um certo tipo de Estado em nome da neutralidade; é mais uma das desilusões do mundo moderno. Porque o liberalismo afirma que cada indivíduo tem o direito de procurar a felicidade à sua maneira, e porque as versões de felicidade que os indivíduos procuram são inevitavelmente mutuamente incompatíveis (“eu desejo que haja orações nas escolas, tu não; eu desejo proibir o aborto, que tu apoias; eu desejo aumentar os impostos sobre os ricos para alimentar os pobres, que tu rejeitas”), e porque não podemos persuadir-nos uns aos outros ou concordar sobre um bem comum, a política é, como dizia MacIntyre, "guerra civil travada por outros meios" (After Virtue 253).
O comentário de MacIntyre, sobre a nova era das trevas em que vivemos é seguido pela observação de que, em contraste com anteriores eras das trevas, os bárbaros não estão às portas, mas na verdade governam-nos há algum tempo (After Virtue 263). Esta conclusão é a que podemos esperar se a visão do mundo de MacIntyre estiver correcta: Seremos governados por pessoas implacavelmente agressivas, ignorantes ou realmente hostis às virtudes necessárias para a vida civilizada e destrutiva da vida social. Como a política hoje consiste em usar ideias e argumentos não para procurar a verdade, mas para manipular os outros na busca do poder, podemos esperar que as pessoas com mais poder sejam aquelas que melhor manipularem os outros para os seus próprios fins e que tiverem o maior desejo de poder. As razões que dão para justificar o seu poder serão falsas, mas amplamente aceites, e irão utilizar esse poder para os seus próprios fins egoístas. Além disso, vão procurar esse poder por quaisquer meios que considerem mais eficazes, na ausência de quaisquer padrões de certo e errado ou de sucesso e fracasso que uma prática proporcionaria. Num mundo assim, dizia MacIntyre, coisas que parecem vícios serão de facto virtudes.










